Openhagen WW El cuerpo como casa: la artista que transforma autonomía y cuidado en música

El cuerpo como casa: la artista que transforma autonomía y cuidado en música


 “Mi Cuerpo, Mi Templo Sagrado” nace de una pregunta urgente: ¿qué lugar ocupa el cuerpo en nuestra existencia, en nuestra educación y en nuestra capacidad de decir quiénes somos? Para Ana, artista, actriz, investigadora y educadora, el cuerpo no es solo presencia: es casa, límite, lenguaje y protección. Su nuevo sencillo —un manifiesto musical que dialoga con Descartes, Nietzsche y con la realidad dolorosa de la violencia contra mujeres y niños— propone que sentir, jugar y cantar también son formas de existir. Con la fuerza del rock y el apoyo de grandes figuras de la música brasileña, Ana transforma un tema delicado en una herramienta de autonomía para la infancia, defendiendo el respeto por el propio cuerpo y por el del otro. Su trabajo, tejido entre arte, docencia e investigación, se expande ahora en un álbum que busca llegar a escuelas, familias y escenarios, abriendo espacios de escucha y reflexión en un momento en que hablar de salud mental infantil es más urgente que nunca.


1. Ana, ¿cómo surgió la idea de “Mi Cuerpo, Mi Templo Sagrado”?
A ideia de “Meu Corpo, Meu Templo Sagrado” surge de uma inquietação com a célebre afirmação de Descartes: “Penso, logo existo”, como se a nossa existência estivesse limitada ao pensamento. Mas nós não apenas pensamos, logo existimos. Sentimos, logo existimos. Brincamos, logo existimos. Cantamos, logo existimos e por aí vai. O corpo é a nossa casa: é nele que nascemos, crescemos e vivemos.
Essa percepção dialoga muito com Nietzsche e com a ideia de ampliar o lugar do corpo na compreensão de quem somos. E o corpo, muitas vezes, acaba sendo esquecido também na escola. Por isso, acredito que, quanto mais cedo uma criança desenvolve a percepção de que corpo, pensamento e sentimento estão conectados, mais ela desenvolve a consciência de si.
Essa consciência é também uma forma de proteção. Quando a criança percebe que o corpo é a sua casa, ela pode compreender melhor seus próprios limites, aprender a dizer não, reconhecer quando algo a incomoda e entender que seu corpo precisa ser respeitado — assim como ela deve respeitar o corpo e os limites do outro.
A música nasce também diante de uma realidade muito dura: a violência contra mulheres, crianças e os movimentos de opressão que, infelizmente, continuamos testemunhando em diferentes partes do mundo. “Meu Corpo, Meu Templo Sagrado” é, nesse sentido, uma canção de defesa da infância, de autopercepção, de liberdade e de respeito: respeito por si, pelo próprio corpo e pelo outro.


2. La canción habla sobre la autonomía corporal y la prevención del abuso. ¿Cómo logras equilibrar un tema tan serio con un lenguaje apto para niños?
Esse equilíbrio vem de uma forma muito natural, simples e objetiva de dizer as coisas. Há também a própria musicalidade do rock. Essa contradição: enquanto, por um lado, tentam nos silenciar, por outro, a música nos permite falar. A palavra ganha a forma de canção e chega com toda a sua potência — e, nesse caso, com toda a potência que o rock tem.
Então, em vez de tratar a criança como alguém incapaz de lidar com determinados assuntos, a música oferece uma linguagem que ela pode compreender, cantar e sentir, com a possibilidade de dizer: este é o meu corpo, ele é a minha casa e precisa ser respeitado.


3. El sencillo reúne a grandes figuras de la música brasileña. ¿Cómo fue trabajar con Luiz Brasil, Daniela Spielmann y Charles Gavin?
Foi um encontro de artistas muito diferentes em torno de um projeto em que eu acredito profundamente. Luiz Brasil é um músico e produtor extremamente competente, com uma trajetória importantíssima na música brasileira, e trouxe toda essa experiência para a produção do álbum.
Daniela Spielmann tem um lugar muito especial nessa história. Ela é minha amiga, minha parceira desde o princípio e foi uma pessoa que me deu a mão para que esse projeto pudesse acontecer. Além de ser uma musicista extraordinária, ela vivencia comigo esse diálogo entre música, teatro e educação.
O Charles Gavin é de uma generosidade enorme. Nós já tínhamos uma relação anteriormente por meio da escola — ele chegou a proporcionar aos nossos estudantes a experiência de assistir a um show dos Titãs — de quem eu sempre fui fã e me sinto honrada de tê-lo no álbum.
Outros artistas também abraçaram a proposta, como Beatriz Rabello, que tem uma carreira solo e um trabalho muito bonito ao lado de seu pai, Paulinho da Viola, e que participou generosamente do projeto; o ator Thelmo Fernandes, de Ainda Estou Aqui, que tem uma voz muito potente; e Bruno Ganem, meu amigo e parceiro, que também tem um trabalho ligado à educação e às questões da infância e da diversidade.
Então, apesar de ser uma produção independente, o álbum acabou reunindo artistas de trajetórias muito diversificadas, que abraçaram a proposta e ajudaram a dar corpo e potência a esse trabalho.


4. Eres artista, actriz, investigadora y educadora. ¿Cómo se entrelazan estas áreas en tu trabajo?
Minha formação é em Artes Visuais e Artes Cênicas, mas transito pela música e pelo cinema. Há 26 anos sou artista docente e desde 2008, dou aulas de teatro no CEFET/RJ, no Maracanã.
A aula de teatro é um espaço de liberdade. Claro que existem regras e estruturas dentro do trabalho, mas é essencialmente um espaço de criação, um campo aberto de possibilidades e de experimentação. Eu experimento muito com os estudantes, e muitas vezes é justamente desse encontro que surgem novas perguntas, caminhos e processos criativos.
Acho que todas essas áreas se entrelaçam porque elas nunca estiveram realmente separadas. Um momento fundamental aconteceu em 2016, quando eu estava encenando Romeu e Julieta com meus alunos. Ao abordar a questão do suicídio dos adolescentes presente na obra, foi como abrir uma caixinha de Pandora. A partir dali, começaram a surgir questões muito profundas trazidas pelos próprios estudantes, e passei a investigar cada vez mais as relações entre arte e sofrimento psíquico.
Essa investigação atravessou o meu trabalho como professora, atriz e artista e chegou à pesquisa acadêmica. Hoje faço doutorado e continuo pesquisando as relações entre arte e saúde mental e em como resignificar as narrativas em arte. Eu acredito muito nesse movimento em que pesquisa e criação caminham juntas. Não vejo teoria e prática como instâncias separadas: a teoria alimenta a prática, a prática produz novas questões para a teoria, e desse movimento também nasce a criação artística.
O álbum “Músicas para Brincar, Ventar e Voar!” é um dos desdobramentos desse percurso. As músicas nasceram dentro de uma dramaturgia que desenvolvi e que chegou a ser montada na escola com os estudantes. O espetáculo teve uma recepção muito calorosa, e os próprios alunos foram grandes incentivadores para a realização do álbum para além do espaço escolar.

5. ¿Y qué sigue?
Meu maior desejo agora é fazer esse álbum chegar principalmente às crianças, aos pais e aos educadores. Ele foi criado pensando também na promoção da saúde e na possibilidade de a arte abrir espaços de escuta, diálogo e reflexão. E isso me parece cada vez mais urgente.
O sofrimento psíquico não é uma questão apenas da vida adulta, nem sequer apenas da adolescência. Hoje os dados mostram problemas de saúde mental atingindo crianças cada vez mais cedo. A Organização Mundial da Saúde estima que 8% das crianças e 15% dos adolescentes no mundo vivem com algum transtorno mental. E, no Brasil, dados do Ministério da Saúde mostram que o suicídio já aparece entre as causas de morte de crianças e adolescentes de 5 a 14 anos e, entre 15 e 19 anos, chega a ser a terceira causa de morte.
Então, antes de qualquer outra coisa, quero que essas músicas circulem, que encontrem as pessoas para as quais foram pensadas e possam provocar conversas dentro das escolas e das famílias.
E o próximo passo é voltar ao lugar de onde tudo isso nasceu: o teatro. As músicas fazem parte de uma dramaturgia, e meu desejo é montar esse espetáculo profissionalmente. Primeiro, quero fazer o álbum circular e, a partir daí, buscar apoios e patrocínios que possibilitem essa montagem e levá-la ao maior número possível de lugares.
No fundo, é fazer esse trabalho continuar o seu caminho: da escola para o álbum, do álbum para o mundo e, depois, de volta ao palco.

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